Trip-O-Rama Peru (pt.2): Lobitos

Por Surfari

Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Quando o sol raiou, com ele veio junto a disposição para ver o lado positivo das coisas. A construção/pousada tinha provavelmente a melhor vista para a onda de Lobitos. Se a cortina da janela ficasse aberta não era necessário nem mesmo levantar a cabeça do travesseiro para decidir se era hora de acordar ou esperar mais um pouco para se molhar. Antes de decidir colocar as ondas anteriormente à parte cultural, meu amigo videomaker/viajante Mark Daniel me alertou sobre o potente swell que atingiria o país no dia anterior à nossa chegada (grande o suficiente para dar a largada na etapa do Big Wave World Tour em Pico Alto, vencida pela lenda Carlos Burle, por sinal). Isso obviamente havia inflado minhas expectativas, e como todos sabem a expectativa é a madrasta da decepção. Nada, em termos de ondas, é decepcionante no Peru, apenas esperava algo que não encontrei. Conforme falei com o Cote, o cara que cuidava da pousada, é preciso bastante areia na bancada para fazer o Lobitos épico acontecer e swells de sul e sudeste são os responsáveis por trazer tanto as ondas quanto a areia. Ainda não me graduei em “surfologia” para entender que elementos não estavam alinhados, mas minha decepção durou o intervalo entre eu ficar de pé e terminar minha primeira onda. Fazia tempo que não cansava as pernas em cima da prancha. Bem vindo ao Peru!

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A vista perfeita do quarto em Lobitos.

Os dias seguintes respeitaram a rotina do sol, do mar e dos outros surfistas. Eu não sou atleta, apesar de fazer atividades físicas regularmente na minha rotina, surfar é algo que demanda força, resistência e tenacidade. Coloque nessa conta a corrente que te move de lugar a todo instante e a disputa com todos os outros famintos surfistas que, como você, não tem nada mais importante pra fazer lá do que pegar todas as ondas possíveis. O resultado é que eu não tenho disposição o suficiente para estar sempre no melhor local e batalhar ombro a ombro o direito de preferência. Por isso, escolhi os horários alternativos para evitar engarrafamentos. Acordava antes do sol raiar, às 6:00, surfava até umas 8:30 (forçando a barra até as 9:00, dependendo do movimento e da inspiração) acordava a Gabriela e tomávamos café.

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A esquerda interminável de Lobitos.

Então tinha que me desdobrar para conseguir alguma coisa pra gente fazer. Inventar algo não era muito problema, o real problema era tentar não repetir a atividade do dia anterior! Então houve caminhadas de reconhecimento, leituras, filmes, um pouco de internet ultralenta e até a ressureição do jogo de infância STOP. Não menosprezo os acessos de riso que a brincadeira rendeu, mas apenas pare um pouco para realizar o quão séria é a falta do que fazer para que tivéssemos que JOGAR STOP! Não havia nem o divertimento com um restaurante diferente pois fizemos um acordo de pensão completa com o albergue ao lado (visto que nossa construção/pousada não tinha cozinha) e ficávamos à mercê do bom humor da cozinheira.

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Após o almoço, o vento sopra forte em Lobitos.

À tarde, entrava um vento forte meio terral/ladal, e enquanto as pessoas tiravam uma soneca ou pensavam na vida eu ia para a segunda sessão, a fim de evitar o entroncamento das 4 às 6:30. Alternei minhas sessões entre Lobitos e Piscinas. Já que não há muito o que contar deixe-me descrever sobre estas ondas. Lobitos é algo que você nunca encontraria no Brasil. Existe uma seção, chamada El Hueco (O Oco, um nome perturbador, desde os anos 90 entoado pelos Raimundos) que inicia ao final de uma formação rochosa e quando a ondulação encontra a bancada começa a ser disparado um tubo não adequado para cardíacos. Quanto menos areia ou menor a ondulação maior a chance dessa brincadeira acabar tatuando a sua roupa de borracha com um ideograma tectônico.

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A onda de El Hueco.

Mais ou menos na região que o tubo cospe o último grito de suas entranhas é onde começa a onde de Lobitos propriamente dita. Novamente, aqui a onda varia em formação de acordo com o “tapete” de areia que cobre as rochas abaixo, quanto mais compacto o fundo, mais perfeito vai ser o desenroscar da onda. Geralmente – ao menos nos dias que eu surfei – havia um drop tranquilo um pouco além do último suspiro do Hueco e após a cavada se formava a seção mais cavada da onda, provavelmente onde a areia começava a nivelar o resto da corrida. Vi alguns sortudos encontrar e se esconder em tubos rápidos, nada além de 1 ou 2 segundos, mas o tamanho muito vezes fazia com que a onda não fosse exatamente top-to-bottom. Após essa parte começava a queimação de pernas, algum espaço para batidas, muitos cutbacks e rasgadas, certas seções de decolagem para aqueles de repertório avançado. Mesmo não despejando tubos, é uma daquelas ondas que não se cansa de surfar, exceto se você for peruano ou seu homebreak se chamar Rincon, Snapper, Punta Lobos etc., mas como não me aplico em nenhum dos casos estava muito bem, obrigado.

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O caminho.

Piscinas fica a uns 15 minutos de caminhada de Lobitos, depois de um píer – que também apresenta uma condição interessante para quem gosta de contato pessoal com o fundo de areia ou é adepto àquelas pranchas de esponja e sem quilhas – no início de uma pequena baía. Bem, minhas próprias palavras (gravadas no meu jornal de viagem) para descrever o primeiro encontro com a onda saíram assim: ao virar uma esquina formada de velho magma cuspido há muito tempo do núcleo da Terra, minha sensação foi a de que se não houvessem mais ou menos 25 pessoas na água e 4 fotógrafos na areia eu teria encontrado nirvana.

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O píer entre Lobitos e Piscinas às vezes oferece boas condições.

Depois de surfar essa onda, entendi claramente o motivo de se chamar Piscinas. O esquema funciona assim: (desconsiderando os 25 gladiadores que querem tanto quanto você um lugar na espiral aquática) você dá entre 10 e 15 passos mar adentro, sobe na prancha e desfere 12 a 16 remadas, espera de 30 segundos a 3 minutos (variação conforme ondulação e timing da entrada) e pega uma onda, surfa com o melhor da sua habilidade uma parede rápida, muito down the line – mais cavada que Lobitos, nesse swell ao menos – decide se sai por cima e pega mais uma onda no caminho de volta ao pico ou se coloca em posição perpendicular à praia e retorna pela praia. O resto do trabalho é caminhar os 150 ou mais metros que você percorreu e repetir o processo. Deleite em forma de onda é o apelido disso. Evite os horários de pico e seja feliz.

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Lucas surfando Lobitos.

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Lucas em Piscinas.

Bem, essa foi mais ou menos a rotina que passamos nos 5 dias em Lobitos. O único momento de exceção a esse cronograma digno de nota aconteceu num dos dias que caminhávamos para Piscinas – sim, a Gabi tinha ‘tantas coisas para fazer’ que concordou em acordar às 6:00 AM um dia para me fotografar surfando. No caminho pela beira da praia, ainda sonolentos, com o dia recém clareando eu vi uma coisa mexendo: UNA BELA TORTUGA! A gordita estava encalhada na areia (nota mental: começar um regime, nunca se sabe quem será o próximo a encalhar). Ela era enorme, a gente imagina que o casco tinha entre 80 e 100 cm. Quando chegamos perto, ela se encolheu toda com medo, pobrezinha! O Lucas foi desentalar a coitada, mas ela era muito pesada, foi bem difícil, ele acha que ela pesava uns 60kg. Foi um trabalho árduo de equipe, enquanto ela empurrava o chão com as patinhas, ele tentava puxar ela pra fora do buraco e eu ficava olhando – alguém tem que contar a história depois, né? Livre da clausura ela seguiu, com certa dificuldade, para o mar, deixando um rastro na areia. Valeu a pena acordar tão cedo. Realmente valeu e espero que Netuno tenha visto esse nobre ato, mas que não mande nenhum de seus filhos me agradecer pessoalmente, estou bem assim.

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Caminho de volta ao Pacífico peruano.

Após os dias – que pareceram semanas para a Gabriela – estipulados para essa parte da viagem, era hora de colocar o pé na estrada novamente. Decidimos economizar uns soles e ao invés de voltar de táxi para Piura, fizemos Lobitos-Talara (táxi) e Talara-Piura (ônibus). Isso foi decidido aos 43 do segundo tempo e praticamente cronometrado, pois era um domingo e por pouco conseguimos pegar o último ônibus para Piura, caso contrário estaríamos com problemas, pois nosso voo sairia cedo. Conhecemos um taxista muito boa praça que se chamava Kleber ou Klever – perdi o seu cartão, o que foi uma lástima já que ele era um dos caras mais prestativos (até hiperativos) que já conheci e queria que eu alardeasse seus serviços para meus amigos brasileiros – ele nos mostrou a cidade, que era bem aconchegante por sinal. Demos uma volta, vimos gente diferente, comemos uma comida que pedimos, ao oposto das surpresas culinárias do Albergue, e até tomamos um sorvete! Estava em vias de recuperar o bom humor e a saúde psicofísica do meu relacionamento!

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Pôr do sol em Lobitos.

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