Trip-O-Rama Peru (pt. 1): Lima e Lobitos

Por Surfari

Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Texto: Lucas Zuch.

Participação especial: Gabriela Moreira.

Certamente não é uma exclusividade apenas de quem surfa querer ter o seu mapa mundi pessoal devidamente explorado e com diversas marcações ao longo dos continentes. Acredito que quem tem o instinto exploratório fazendo loopings na corrente sanguínea o possui pelos motivos mais distintos possíveis e imagináveis, ao ponto de que seria pura adivinhação ficar citando possibilidades. Logo, como ainda não ascendi ao patamar da leitura de mentes ou de falar pelos outros vou contar sobre a minha ingênua, inócua, egoísta e simplista motivação inicial para viajar. É pra pegar onda.

Pois é, logo agora que você achava que eu viria com um motivo nobre e altruísta, ou algo profundo como uma inclinação cultural e histórica. Não. Infelizmente este ser em busca de evolução é um “alienado” surfista. Antes que a decepção te assole e faça com que clique no “X” do navegador, deixe-me tentar explicar o inexplicável. Viajar é inerente ao surfista, por maior que seja o apreço pelo pedaço de paraíso que tenha encontrado, esse espécime é constantemente desafiado a tentar o novo. É como se o desconhecido tomasse a forma humana, colocasse o dedo na sua cara e dissesse: “Duvido tu me alcançar, seu m*#%$”. Bem, não preciso dizer o que acontece em seguida.

Ok, vou parar de tentar te convencer que meu impulso de viagens é nobre. É o que é. Já está até parecendo acesso de culpa isso.

 Então, como era meu objetivo inicial antes deste devaneio, meu relato de viagem desta vez é sobre o Peru. Na minha última viagem, houve o cancelamento de um dos voos e eu e minha namorada ganhamos um vale-U$ 150-para-ficar-quieto-e-não-nos-processar da empresa aérea. Como o principal destino da referida companhia (mesmo não ganhando nada vou dizer que é a TACA, mas, fiquem de olhos abertos errantes com pranchas pois os sacanas cobram U$ 50 por sarcófago) era o Peru, resolvi que seria razoável aproveitarmos a oportunidade para pegar boas ondas e conhecer o país, a princípio nesta ordem.

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Lima vista do mirante do Convento de Santo Domingo.

Como de praxe, para minha companhia viajante, a aquisição de um guia era imprescindível, tanto para planejamento quanto para consultas in loco. Ok, já me acostumei com isso e realmente ajuda em diversas situações. Consultei amigos e conhecidos próximos que já haviam visitado o país sobre a condição das praias, se era seguro levar namorada, distâncias entre picos de ondas, condições favoráveis, indicações, alguma pedra submersa e outros insights que quem conheceu o local poderia oferecer. Alguns dos que haviam ido com namoradas fizeram os locais turísticos acompanhados e depois foram para a parte de surf sozinhos, outros tinham feito apenas a parte aquática e não poderiam opinar sobre o outro itinerário. Sem exceção, porém, todos disseram que no litoral não haveria NADA que alguém que não surfasse teria prazer em fazer.

Essas pessoas foram enfáticas – essa última frase iria ecoar na minha cabeça durante os 5 primeiros dias de viagem – mas já havia feito uma viagem envolvendo surf e incentivos alternativos com a Gabriela (minha namorada) para o Panamá. A parte de surf foi em Santa Catalina, que não é nenhuma surf city, muito pelo contrário, há umas 2 lojinhas (sendo uma de artigos para surf), 10 pousadas e uns 8 restaurantes. Exclua as ondas e não sobra muito o que fazer. Pois bem, o destino peruano faria Santa Catalina parecer uma metrópole.

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Lucas e Gabriela no início da viagem.

A escolha do local foi baseada exclusivamente na onda. Não considerei muito a logística (que não era das mais simples), não ponderei os incentivos não surfísticos, mal avaliei nossa acomodação. Queria ir para um lugar que eu não conhecia, que era um pouco além do circuito Punta Hermosa/Pacasmayo e, se tudo desse certo, ainda haveriam tubos. Lobitos foi a decisão. Realmente, quem conhece o local deve estar ou chocado com a minha escolha de levar minha namorada não surfista para lá ou rindo muito da minha ingenuidade ao não pesquisar devidamente sobre o local. É o que é, ou melhor foi o que foi. Deixem-me conduzi-los pelas próximas batidas do compasso.

Acordamos as 4:30 AM do dia 14 de agosto para pegar o voo Porto Alegre-Lima – como se não bastasse não saber direito onde eu estava nos metendo, a correria começou bem cedo, naquela tensão de o despertador não funcionar e arruinar o início da viagem – tendo por sorte um avião semicheio em que conseguimos 3 poltronas para cada um. Chegando em Lima, haveria 6 horas de espera até a conexão para Piura (cidade satélite mais próxima de Lobitos. Nota do autor: como havia pesquisado mal, descobriria que não era de fato a cidade mais próxima) então resolvemos dar uma volta pela cidade e almoçar para matar esse tempo.

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Curiosidade: vários prédios são pintados de amarelo para dar um alento aos olhos, pois o sol raramente brilha em Lima.

Por maiores que sejam os problemas socioeconômicos do Brasil, nunca esqueçam de agradecer por duas coisas, ser cidadão brasileiro (e não precisar negociar o preço de cada item básico de sua necessidade) e por haver taxímetro nos táxis. Pois foi com este meio de transporte que começou nossa saga de pechinchas e negociações que permeiam a estadia de qualquer turista num país desconhecido, especialmente na América latina. Apenas um parênteses aqui:

Guia rápido de negociação (para qualquer serviço/produto):

  • Nunca aceite o primeiro preço;
  • Não demonstre interesse excessivo;
  • Não tenha vergonha de pedir menos;
  • Fale sempre com mais de um comerciante;
  • Esforce-se para gargantear na língua local;
  • Quando estiver quase acertado, diga que vai pensar ou finja que vai embora.

Ok, não há ordem estabelecida para encenar esse guia e tudo depende da lei de oferta/demanda, se você não estiver em um local com abundância de fontes ou sua situação for preocupante, azar do seu bolso.

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Sinais da invasão espanhola em Lima.

Bem, retomando, fomos para o centro histórico de Lima, conhecer e almoçar. Vou chegar nesse tópico daqui a alguns parágrafos mas, sendo nosso destino após a epopeia aquática o circuito Cuzco e Machupicchu, estávamos bastante inclinados a conhecer um pouco dos povos andinos. Fato é que se houve civilizações incas ou pré-incas em Lima, os conquistadores espanhóis fizeram um bom trabalho em esconder estas evidências, ao menos na parte central. A Plaza de Armas é cercada por prédios governamentais, catedrais e conventos católicos e outras construções históricas e de arquitetura europeia. Tudo muito bonito e rico em detalhes, é verdade. Mas nada de incas.

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A culinária peruana é mundialmente famosa.

Na Plaza, ficam o Palacio de Gobierno, o Palacio Municipal de Lima e a Catedral. O lugar é super bem cuidado, com guardas por todos os lados vigiando para que ninguém pise na grama. Eu sou super peruana, mas a cara de gringo do Lucas acaba denunciando nossa origem estrangeira. Ao meio dia tem a troca de guarda no palácio do governo, naquele estilo inglês falsificado, dizem que é bem legal, mas estávamos ocupados comendo. Achamos uma passarelinha tão bonita e aconchegante com vários restaurantes charmosos. Fomos disputados pelos garçons na rua, me senti tão importante. O almoço, com petisco, entrada, prato principal, sobremesa e café saiu por 23 soles, o que equivale a 8,64 dólares. 

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Brochetas de pollo e Causa rellena de pollo.

Fomos também visitar o Convento de Santo Domingo, logo de cara uma guia já se colou e desandou a falar igual uma matraca. Na entrada tem um salão com um teto de madeira LINDO, feito com 3 mil pedaços de madeira. Levou 20 anos para ficar pronto. Um dos pátios tem 6 mil azulejos pintados a mão com uma tinta feita com clara de ovo que vieram da Espanha, as portas são de madeira esculpida vinda do Panamá e em cada esquina do pátio tem umas esculturas-quadro de alguma passagem bíblica, que demoravam de 15 a 20 anos para ficarem prontas. Eles realmente não deviam ter o que fazer naquela época, tipo assim para ter um quadrinho daqueles hoje, eu teria que ter começado a esculpir o meu com 3 anos de idade.

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Arte européia em solo peruano.

Bueno, após esse tour introdutório, quando chegamos em Piura, descobri que deveríamos pegar um táxi para Lobitos (também saberia mais tarde da opção mais barata de um ônibus, mas como chegamos tarde essa foi realmente a melhor ideia) e que estávamos a duas horas e meia de lá, ou seja, chegaríamos perto das 10:00 PM. Tendo saído de casa as 4:30 da manhã, este havia sido um dia intenso. Depois de duas horas no carro chegamos à Talara, a cidade que realmente ficava próxima de Lobitos. Foi aí que comecei a agradecer aos céus que a Gabi estava dormindo. Pegamos uma estrada off-road, onde tudo que dava pra ver é que não havia nada em volta a não ser areia e pedras. Já esperava por uma paisagem desértica, mas isso beirava o que a Curiosity deve estar encontrando em Marte. Por meia hora, rodamos em direção ao vazio.

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Lobitos em sua melhor imitação de Marte.

Minha sensação de onde-que-eu-fui-nos-meter era aumentada constantemente pela orientação que o motorista tinha acerca do lugar. Frases como “não venho aqui há 20 anos” e perguntas do tipo “tu sabe onde fica o hotel?” me deram a impressão de que havia escolhido uma cidade-fantasma para me hospedar e que estava sendo conduzido até lá pelo Stevie Wonder peruano. Um detalhe que suprimi até este momento foi que o hotel que eu havia reservado tinha uma peculiaridade. Não tinha nome. Não tinha nenhuma referência para encontrá-lo a não ser que havia uma placa que dizia “HOT SHOWER” e estava “entre o Albergue e a Pousada do Espanhol”. Como nosso motorista aparentemente conhecia menos sobre Lobitos do que eu, digamos que o adjetivo ‘apreensivo’ estava longe de descrever como eu me sentia.

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Paisagem desértica.

Pegamos algumas direções com a única pessoa acordada no lugarejo – sim, para completar já passava das 10 da noite e a cidade parecia desligada havia horas – e chegamos no local aproximado. Ao concordar em se colocar numa situação dessas, posso seguramente afirmar que a Gabriela não tem muitas frescuras. Mas como estávamos fazendo uma parte da viagem que interessava muito mais à mim do que a ela e que quando se viaja junto com outra pessoa, principalmente uma mulher, você tem que garantir, no mínimo, a integridade física e emocional desta pessoa, digo que fiquei um pouco mais do que preocupado quando realizei o fato de que nosso hotel ESTAVA EM CONSTRUÇÃO! Não tinha nome porque não devia nem estar funcionando!! Em outro momento chegarei ao mérito de como fui parar lá, por ora estava tentando sobreviver a este fato. Falei com o cuidador dos escombros e pedi pra ver o quarto antes de embarcar de vez nessa loucura. O primeiro alento da viagem, finalmente. O quarto era bom como haviam me prometido, limpo, espaçoso, chuveiro quente. Tudo ok, nos instalamos. Obviamente não havia onde comer numa hora dessas, mas só queríamos um lugar para deitar. Após mais de 18 horas de lá para cá conseguimos um merecido descanso.

Continua…

Fotos: Lucas Zuch e Gabriela Moreira

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