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Luciano Burin

Surfari
Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

Desde que a internet se tornou um veículo livre e com conteúdos aparentemente infinitos, há pouco mais de vinte anos, muito se debate sobre o quanto existe de bobagens, inutilidades e falácias versus portais, plataformas e artigos que estimulam os neurônios e enriquecem nossa bagagem. Um dos principais pontos de tensão desse limiar é que, por definição, não há – nem nunca haverá se a internet continuar, de fato, livre – editores ou revisores disponíveis para todos os indivíduos que utilizam o ambiente virtual. Não há nada, nem ninguém que impeça uma pessoa de postar a informação que quiser, seja ela embasada, copiada, mentirosa ou inútil. É a liberdade de expressão em sua forma mais pura.

Alimentando o debate citado anteriormente, a ausência de filtros e editores faz com que os condenadores do besteirol argumentem viver em meio a continentes de porcaria enquanto tentam encontrar arquipélagos de qualidade. Uma visão mais otimista avalia que apesar do poder da tolice de se espalhar em progressão geométrica a internet é tão extensa que mesmo se a qualidade representasse 1% – acredite, ela representa bem mais do que isso – isso ainda seria muito mais informação do que qualquer ser humano é capaz de processar. Diria que o surf não foge a essa regra, embora acredite que é preciso procurar com bastante atenção para não cair no lugar comum.

Muitas vezes acho que o surf sofre da síndrome do status quo, talvez por culpa da indústria que quer vender o seu sonho dourado de adolescência eterna e perpetuação da tri-quilha 6’0” ou por culpa de nós, surfistas, que insistimos em comprar um pedaço desse delírio. Fato é que existe muito mais no surf do que a batida/rasgada/batida do Mick Fanning ou a última viagem do Jordy Smith para Mentawaii, isso também é o que pensa o jornalista carioca Luciano Burin. Radicado em Florianópolis, Luciano dedica-se desde 2009 a manter e enriquecer um dos melhores canais da cultura surf independente no Brasil, o blog Surf & Cult.

Com uma pegada baseada no “faça você mesmo”, Luciano se alterna entre as atribuições de escritor, roteirista, fotógrafo, cinegrafista e editor. Sua última empreitada, a mais ambiciosa de sua carreira até o momento, foi a realização do documentário Pegadas Salgadas, que conta como o ocorreu o desenvolvimento do surf em Florianópolis (SC) a partir da vida e história de ícones do surf catarinense. A seguir você confere uma entrevista com o artista multimídia Luciano Burin e alguns de seus trabalhos.

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Mosaico de cultura surf. Por Luciano Burin.

– Conte um pouco da sua trajetória profissional, do início até os dias de hoje.

Desde criança tinha fascinação por ler, escrever, então o desejo de ser jornalista surgiu como um caminho natural. Comecei ainda na faculdade como repórter esportivo (era setorista do Flamengo no, então, recém lançado site do Pelé). Trabalhei um tempo como redator de rádio e depois me mudei pra Floripa onde ingressei num curso de cinema e vídeo. Nos últimos sete anos trabalho como assessor de imprensa, escrevendo textos para clientes corporativos dos mais diversos segmentos. Paralelo a isso, fiz pós-graduação em marketing, montei um blog para escrever sobre temas do meu interesse e investi em projetos audiovisuais independentes.

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Lagoa da Conceição, Florianópolis, SC. Foto: Arquivo Pessoal L.B.

– Desde quando surgiu e foi colocada em prática a ideia do Surf & Cult? 

Como jornalista, acompanhei com curiosidade o surgimento do universo dos blogs, mas demorei um tempo até chegar a um formato que me permitisse ter um foco e funcionasse como uma plataforma profissional. Foi assim que iniciei o Surf & Cult em julho de 2009, buscando explorar as muitas nuances do universo do surf, expressar minhas ideias, e, através das matérias e entrevistas, ter a oportunidade de conhecer pessoas e trabalhos que admiro.

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Luciano nas Ilhas Canárias. Foto: Arquivo Pessoal L.B.

– Quais são os principais desafios em manter uma plataforma de cultura surf independente?

O desafio principal é a velha questão “tempo e dinheiro”. Fora a ajuda de um amigo na parte de webdesign, sou responsável por todo o conteúdo do blog. A produção de conteúdo original – textos, fotos e vídeos – e a manutenção de um padrão de qualidade legal demanda horas de trabalho e recentemente eu tive que diminuir ainda mais a periodicidade dos posts, pois simplesmente não conseguia dar conta de conciliar o trabalho do blog com outras tarefas remuneradas que tiveram que ser priorizadas.

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Locação do filme Pegadas Salgadas em Florianópolis. Foto: Arquivo Pessoal L.B.

– Como você enxerga a cultura surf no Brasil frente a países onde este estilo de vida e comportamento é mais antigo, como Califórnia, Austrália e, até, África do Sul?

O termo “cultura surf” já é complicado por natureza… realmente não conheço muito o cenário da África do Sul, mas em comparação à Australia e Califórnia, a questão cultural passa justamente pelo espaço de tempo em que o surf está inserido em cada sociedade. Como você bem observou, o surf está presente de forma consistente nesses países há muito mais tempo que no Brasil.

Infelizmente ainda não tive a oportunidade de ir pessoalmente à Califórnia, mas o que mais me chamou a atenção quando viajei pela Austrália foi a maneira que o surf está inserido como um programa familiar, onde você vê pais, filhos, avós, mulheres, crianças chegando juntos à praia para surfar juntos…. cada um com um tipo de prancha diferente. Aqui no Brasil, como o surf é algo mais recente, parece que só agora a visão das pessoas começa a se ampliar no sentido dos surfistas perceberem que existem múltiplas formas de surf e que todas são válidas… seja longboard, pranchas híbridas, alaias, bodyboard, handplanes etc.

Por fim, esta maior liberdade de expressão nas ondas também deve se refletir na produção artística e nas formas como as pessoas se vestem e manifestam a sua identificação com o surf. Nesse sentido, a Califórnia é o lugar onde o surf é mais vibrante em termos de diversidade artística e de estilo de vida abrigando uma verdadeira cena underground – que foge do padrão de roupas e comportamento da surfwear tradicional, ainda predominante no Brasil e em outras partes do mundo.

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Junior Faria e Felipe Siebert longboarding. Foto: Luciano Burin.

– Quem são as suas principais referências para continuar criando, escrevendo e trabalhando? Tanto no surf quanto fora dele.

Filmes e revistas são a principal fonte de inspiração… todo mundo que se preopcupa em realizar um trabalho bem feito e original dentro do universo do surf, seja na fotografia, texto, desenho ou fabricação de pranchas… e é o trabalho dessas pessoas que procuro divulgar no Surf & Cult.

Sempre fui muito crítico em relação aos conteúdos relacionados ao surf da dita “mídia especializada” brasileira e por conta disso, não enxergava um caminho para me inserir profissionalmente como jornalista de surf até o surgimento dos blogs, que deu voz a toda uma massa de realizadores independentes. As imagens são o principal veículo de divulgação do surf e a parte editorial dos textos sempre deixou a desejar na ideia de que “surfista não gosta de ler e só quer ver fotos”. Com esssa visão, fica realmente difícil mudar as coisas e as marcas não se dispõem a investir e valorizar as iniciativas que fujam do padrão. Parece tudo muito acomodado.

Mas voltando a sua pergunta, eu sempre devorei revistas de surf nacionais e estrangeiras e quando moleque curtia muito as colunas do Fred D’Orey na Hardcore e na Fluir. Atualmente o meu jornalisa de surf favorito no Brasil é o Julio Adler, que consegue imprimir muito humor e informação em suas análises. Em termos de revista, a The Surfer’s Journal é sem dúvidas a principal referência, com reportagens aprofundadas e cheias do espírito explorador e aventureiro característicos do surf. Em termos de blog, minha referência maior é o Korduroy pelo formato e volume de conteúdos ligados ao lado artísitico, principalmente no universo dos filmes.

Sou fã dos filmes do Cyrus Sutton, irmãos Malloy, Mikey DeTemple e do Jack McCoy e no Brasil, além da turma do Grupo Sal (Rafael Mellin e Marcelus Viana), acho que o Loic Wirth e o Pietro França estão desenvolvendo um trabalho de muita qualidade em termos de fotografia. Na minha opinião, em termos de conteúdo, o melhor filme de surf disparado é o “Fábio Fabuloso” do Pepê Cezar e torço para que aqui se consiga fugir das amarras dos filmes de surf que são apenas uma sequência de clipes musicais de ação nas ondas…. acho que os filmes de surf podem ser muito mais do que isso!

Fora do universo do surf, a música é sem dúvidas o meu principal combustível criativo e algo que sempre me acompanhou. A literatura também é algo que me dá grande prazer e inspiração: autores como John Fante, Albert Camus, J.D. Salinger, Paul Auster e Charles Bukowski são os meus favoritos.

Pegadas Salgadas Trailer Oficial from Surf & Cult on Vimeo.

– Como surgiu o projeto Pegadas Salgadas? Foi sua primeira empreitada nas películas? Quem esteve envolvido?

Minha primeira produção de surf pra valer foi o filme “Roots Time – Reciclando uma Prancha”, uma ideia desenvolvida junto com o shaper Felipe Siebert e seu irmão Fábio Siebert, onde mostramos todo o processo de recriação de uma antiga e detonada prancha de surf, no estilo “faça você mesmo”. Foi um aprendizado muito legal e o filme ganhou destaque na revista e no site da Hardcore, com ótima repercussão.

O Pegadas Salgadas é um projeto antigo que investi alguns anos até conseguir que ele fosse premiado no edital catarinense de cinema, em 2009,  e assim obtive recursos para a sua realização. Fiquei muito feliz com o resultado alcançado e muito disso se deve à equipe que consegui formar em torno do projeto, com cinegrafistas jovens e talentosos de Florianópolis como o Antonio Zanella, o Rafael Ribeiro e o Fábio Siebert, no som, formando a equipe de entrevistas.

Na edição, o meu parceiro Marcos BG – que me ajuda com o visual do Surf & Cult – foi fundamental  para chegarmos ao resultado final. O Tiago Santos (produção executiva e finalização), o Leonardo Gomes (edição de som) e o Marcos Delboux (câmera) completam a equipe do filme.

Na trilha sonora, meu amigo Guilherme Vieira me passou algumas composições originais que encaixaram como uma luva e também foi muito legal contar com o apoio de bandas locais como a A.R.T. Project para criar um conteúdo que representasse bem o universo de Floripa.

– Qual e como foi o caminho para que esta ideia saísse do cérebro para a vida real?

Foi sem dúvidas um caminho longo de aprendizado, especialmente neste último ano, e muito trabalho, já que por conta dos recursos reduzidos, tive que acumular diversas funções e participei ativamente de todo o processo desde a primeira linha escrita, passando por toda a produção, prestação de contas, contatos com personagens, equipamento, contratos e as tantas questões técnicas envolvendo formato de captação, armazenagem, edição e finalização do material… no momento, estou finalizando a legendagem, uma tarefa que descobri ser muito mais complicada do que imaginava!

Mas sem dúvidas é um sentimento muito bom de realização ao ver o filme terminado e saber que, entre erros e acertos, as lições aprendidas ao “botar a mão na massa” dessa maneira serão muito proveitosas para futuros projetos.

Pegadas Salgadas – Clipe 1 from Surf & Cult on Vimeo.

– O que podemos esperar de Luciano Burin para os próximos tempos?

Neste ano pretendo trabalhar o máximo possível na divulgação do Pegadas Sagadas, em festivais de cinema no Brasil e no exterior. Abri uma produtora chamada Scult e estou com um projeto de uma série de TV baseada na ideia do Pegadas. Pretendo também tentar a sorte em vídeos corporativos para marcas de surf, embora me pareça um caminho complicado, mas a ideia é alavancar a produtora e mergulhar de cabeça na produção audiovisual. Na medida do possível, pretendo continuar a produzir conteúdos para o Surf & Cult pois é algo que me dá muito prazer e que me pemite conhecer melhor o trabalho de pessoas que me inspiram. Aliás, esta talvez seja a melhor recompensa do jornalismo independente.

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Luciano e os amigos experimentando designs. Foto: Arquivo Pessoal L.B.

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Blog Surf & Cult

Texto e entrevista por Lucas Zuch.

 

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