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Avante Surf Criollo

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Vivemos, respiramos e amamos o que fazemos

O mundo está melhorando.

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Mesmo com a crise econômica que nos golpeou, a polêmica da (i)migração na Europa ou a falência sistêmica de instituições tradicionais, o mundo está se tornando um lugar melhor.

Faz tempo que procuro observar o que está ao meu redor como um conjunto de ações e posicionamentos que contribuem para a qualidade de vida geral. É bem fácil rebater essa visão com uma postura cética, argumentando que pertenço a uma elite privilegiada e que nunca coloquei os pés na rua. “Pois a violência está aí”, “Ontem arrombaram o carro da minha vizinha”, “Você não viu o caso do pai que maltratava a filha?”

Sim, esses atos terríveis e condenáveis acontecem todos os dias, diversas vezes por dia, e chocam. E tampouco são exclusivos à grupos vulneráveis, estão entranhados em nossa sociedade da favela ao triplex. Mas para esses argumentos exponho o seguinte, o crime sempre fez parte da humanidade, tal qual uma série de outros atos, como a filantropia e a arte. E se você analisar os dados que estão aí disponíveis vai perceber que índices como taxa de homicídios, escolaridade, mortalidade infantil, fome e pobreza são mais baixos do que a 150 anos atrás. Ainda não fomos capazes de extingui-los, mas me parece, ou gosto de acreditar, que estamos no caminho certo.

Um dos motivos pelos quais as pessoas vivem às sombras e temendo o que pode lhes acontecer quando cruzarem a rua, é o tipo de notícia que consomem. O modo e o teor das notícias transmitidas em quase todas as mídias jornalísticas instiga o discurso do medo. Então, esse ciclo de oferta e demanda, que não sei ao certo como foi iniciado, realmente chama a atenção, e vende. Claro, é muito mais difícil, e um pouco banal, noticiar coisas boas, pois acontecem toda hora, dificilmente possibilitam a criação de tensão ou um arco narrativo interessante. Notícias boas, de certa forma, não são notícias, são acontecimentos que deveriam naturalmente ocorrer.

Talvez você tenha ouvido, visto ou lido sobre o dia em que o Monumento do Laçador amanheceu com uma prancha. Sim, essa notícia causou bastante discussão, para a alegria, indiferença ou indignação – desculpe prefeito (: – das pessoas. Sendo um dos integrantes que realizaram a intervenção, o que mais nos deixou felizes foi que por meia hora, uma hora, quiçá mais de uma hora, os noticiários do Rio Grande do Sul cessaram o discurso do medo para falar de uma manchete inocente e bem humorada. Para quem permanece sem entender nada dessa história, contextualizo um pouco.


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A intenção era, simplesmente, celebrar a pluralidade da cultura gaúcha. Muitas vezes ficamos presos a conceitos de tradição que acabam por restringir ao invés de enaltecer costumes, formas de expressão, elementos culturais. De certa forma, algumas pessoas que não se sentiam representadas pelo Monumento do Laçador, quando o viram com uma prancha se sentiram. E esse também era um dos objetivos, se mantivermos a cultura gaúcha balizada e representada apenas por quem tem relação direta com o campo, corremos o risco de extinguir nossa própria tradição, pois cada vez mais pessoas vivem nas cidades. A troca de referências e o contato da cidade/praia com o campo é saudável para a nossa união como povo.

Além disso, o campeiro e o surfista tem muitas semelhanças, como o apreço pela natureza, o contato com o horizonte e o entendimento do clima. O surf requer que você se desconecte do passado e do futuro, e que você viva o presente. Essa conclusão é extremamente importante para entender que o que importa é o que está acontecendo nas nossas vidas agora, independente da situação econômica, política, familiar, moral etc. O surf no Rio Grande do Sul tem peculiaridades que o tornam único. Aqui é frio, é desafiador, é uma batalha constante contra os elementos, e essa é justamente a beleza e o encantamento desse esporte. O Surf Criollo é resultado da união do que o campeiro e o surfista tem em comum, a busca pelo equilíbrio em um ambiente instável.

Outro ponto interessante é que a partir de um acontecimento, as pessoas criam suas próprias realidades e definições. Por exemplo, o Surf Criollo é mesmo um esporte? O Taura Cura, que conversou com o prefeito José Fortunati, é um personagem ou alguém real? Isso era coisa séria ou uma anedota? Essas são questões que tem de ser definidas por cada um dos indivíduos afetados pelo causo, pois assim como a arte, o entendimento e o significado estão na cabeça do receptor. Do nosso lado, não foi o buzz gerado, não foi ‘ter feito história’, não foi ter saído ileso o motivo de maior alegria. O motivo de maior alegria foi ter conseguido fazer com que muitas pessoas iniciassem aquele dia com um sorriso no rosto e mais leves, pensando que sim, talvez o mundo esteja realmente melhorando.

 

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Malvadeza, Taura Cura, Grosso| Fotos: Zurrilho e Bolhadecker.

 

Texto: Lucas Zuch

 

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